A garota que amava os ônibus
A lágrima negra, não pinga, escorre grosseira pela face bruta de uma garota meiga. Ela exibe um sorriso esculpido amarteladas que ilumina um dia cinzento numa vila de caixas de fósforo coloridas. Onde as pessoas vivem de seus medos e são reféns de suas existências, das sombras e das sobras do admirável mundo novo.
E lá está ela, transeunte, a paquerar os grandes e incessantes ônibus, admirar seus hábitos, a formular tempos e desnudar suas ferragens… Ela os vê, os ama, e inexplicavelmente, ou, por outro lado, de forma muito clara e sensata, ela se apaixona. A sensatez, neste caso, é uma questão de ponto de vista, e neste episódio peculiar, me interessa apenas o dela.
Ela se declara a eles, os espera, se decepciona, os ama, se revolta, mas, sempre os ama. Desde cedo aprendera a enxergar seus engenhos, a notar suas marcas e marchas, e se deleitar nas notas roucas de seus roncos. O ciclo, o tempo,tudo isso é o porto seguro de nossa menina, a menina da vila que se prende àquilo que sabe, àquilo que ela conhece e se ilude ao desejar, ou mesmo supor que controla. Falo do amor pitoresco pelas coisas que nos rodeiam. Como pode alguém amar uma porta retratos? Como pode alguém amar um ônibus? Mas ela sim. Coloca as mãos sobre as minhas, me olha nos olhos, e com um sorriso bobo declara “São meus. Apenas amo-os. Quero desmontá-los e montá-los novamente, quero acariciar cada engrenagem e desvendar os segredos de suas almas mecânicas”. Então penso aqui comigo: seria amar entender? Amar é desconstruir? Há muito não percebo este amor que ela sente, é uma pena. Às vezes o vejo, lá na frente dobrando a esquina, ou sinto-o a olhar sobre o meus ombros, a apontar algo, e sussurrando me confessa a beleza do sol vespertino após as chuvas de março. Amor sorrateiro se esconde por trás do sorriso de garotas desconhecidas, e debaixo das pálpebras de outras gurias que por aí vejo. Não há desejo, há apenas o deleitar, o saborear da catarse que me assola, me esfria o ventre e me faz pensar “Que sorriso, que olhos!”.
Por falar em belos olhos e sorrisos, isso me leva de volta à nossa guria, isso me faz lembrar o quando os olhos daquela menina brilham quando fala de seus amores. Gosto de ouvir, gosto de sentir, e quem sabe, mesmo que por um instante, dar uma olhadela naquele sentimento de que fica se esgueirando por aí.